‘Troca de músicas via Zune’

Devido às questões que levanta, posto abaixo — na íntegra — o artigo do jornalista Pedro Dória (e-mail: pdoria@nominimo.com.br), publicado no caderno Link do Jornal O Estado de São Paulo em 20 de novembro de 2006.

“A imprensa estrangeira está caindo em cima do novo player de música da Microsoft, o Zune. Coitado: é difícil mesmo, até para a empresa de Bill Gates, enfrentar um produto já tão sólido no imaginário das massas como o iPod. E, bem, o iPod é tão bem pensado, tão simples e no entanto poderoso, que a comparação fica ainda mais difícil para qualquer um.

Mas em meio às críticas, uma característica do Zune periga sair desacreditada perante o iminente fracasso da maquineta. É o sistema de trocas de músicas entre usuários. O tipo da coisa que faz todo sentido num MP3 player.

No Zune, funciona assim: o player tem WiFi. Então, se há outro Zune nas proximidades, o feliz usuário pode enviar uma música – ou uma fotografia – para o próximo.

O diabo é que tudo sai feito à moda da Microsoft: quer dizer, dá um gostinho das possibilidades que a tecnologia permite, mas que o portador do Zune não se acostume. É pela metade. A música tem prazo de extinção: três dias após recebida; e tem número de vezes para ser ouvida. Três, também. Três vezes em três dias.

O que sobra para quem quiser ouvir no quarto dia ou na quarta vez é um link para a loja de músicas da Microsoft. O prezado é convidado a comprar.

Cá no Brasil, não temos acesso à loja de músicas da Apple e, por conta das dificuldades da legislação de direitos autorais, provavelmente não teremos também acesso à loja da Microsoft. Ao menos, não a princípio.

Evidentemente, é justamente a legislação que se mete no caminho do compartilhamento de músicas. Dar música de graça, não pode. Tem dono: as gravadoras.

Só que é feito de qualquer jeito. É feito desde os tempos das fitas cassete que fazíamos para as namoradas, que adiante continuaram fazendo tão logo vieram os CDs graváveis e que hoje se faz enviando por email, pendrive ou seja lá o que for.

Existe uma lição por trás desse precário mecanismo de compartilhamento da Microsoft. É uma coisa que todo mundo quer que aconteça, que os engenheiros sabem que acontecerá, que as gravadoras resistem e por fim permitem – embora só um pouquinho.

Música, antes de haver gravadoras, era uma coisa social. Não deixou de ser. O melhor lugar para ouvir música continua sendo a sala de concerto – barulhenta em caso de rock, silenciosa se for jazz – mas fundamentalmente comunitária. Se a música gravada inventou a audição solitária, o mercado de massa tratou de corrigir isto. Todos ouvem solitários os mesmos discos para discuti-lo no dia seguinte.

Gravadoras nunca tiveram nada contra esse fator comunitário da música. Justamente o contrário: quanto mais gente ouve e recomenda e comenta, mais se vende. Daí a esquizofrenia repentina de querer controlar todas as cópias.

Como está, o mecanismo comunitário de audição do Zune não venderá muito mais que uma meia dúzia de aparelhos. E, como está, é só por faz-de-conta que as gravadoras desesperadas tentam impedir que a tecnologia faça o que todos desejam que ela faça. Porque CDs e e-mails e pendrives continuam sendo carregados com MP3s fresquinhas saídas de discos comprados. E, dessas mídias várias, continuarão inseminando iPods, Zunes ou sejá lá quais outros forem.

Compartilhamento comunitário é justamente a essência da internet e do mundo digital ao seu redor. É o que acontece em blogs, que reúnem grupos de amigos ou de gente com interesses similares; é o que acontece em Orkuts ou MySpaces da vida; é o que trouxe sentido à música digital. É a facilidade de compartilhamento de música que dá sentido ao iPod – ou a qualquer mecanismo que possa sustentá-lo.

Tentar controlar isso, no fim das contas, é só faz-de-conta. Não por fingir controlar. Mas por fingir que acredita que conseguirá controlar.

Não conseguirá”.

3 respostas para ‘Troca de músicas via Zune’

  1. Thyago Miranda disse:

    Muito bem escrito esse texto do Estadão!

    Realmente, não acredito nas “meia-dúzias” que esse aparelho venderá. Aqui no Brasil, não faz sentido, já que nem o próprio iPod tem uma penetração tão considerável no mercado. E, o inteligente mercado americano, acho que saberá escolher entre o que é, e o que tenta ser. Nesse caso, entre o iPod ou o seu assassino/copiador.

    Sinceramente, a Microsoft conseguiu falhar em ambas as tentativas, copiar ou matar!

    Mas, ele tem suas particularidades também. Só que nesse caso, como já sabemos, só afetam a Creative, Sandisk e afins da segunda posição em Market Share.

  2. bad card credit credit uk

    Tonight free u.s cellular ringtones funny free mp3 ringtones

  3. free ringtones for cingular phone

    It seems to me free samsung cell phone ringtones download free hindi ringtones

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: